A Ilha do tesouro compartilhado


Uma das menores capitais do país possui a maior riqueza que um povo pode ter: índices elevadíssimos de qualidade de vida.

vitoria-ESAcordar mais tarde e ter tempo de ler o jornal – com extrema calma e paciência – na companhia dos eventuais, monótonos e prolongados goles de café. Vida de aposentado? Não para dona Antônia da Paz. Levantar bem cedo, correr para o ponto de ônibus (sem tomar o desjejum) e encarar jornadas de uma, duas ou até três horas de “viagem” dentro da cidade para chegar pontualmente ao trabalho (sem contar com os imprevistos: acidentes no trânsito, alagamentos causados por intensas chuvas). Vida de trabalhador numa capital? Não para a assistente social e professora Mirian Vieira. Formar-se na faculdade e, após os anos esperando pelo indispensável diploma, ter que aguardar mais longos períodos de desemprego. Vida de recém-formado? Não para o engenheiro mecânico e empresário Marcelo Denadai.

Que lugar é esse? América do Norte, Europa, Emirados Árabes? Na verdade, não. Estamos falando mesmo é de Brasil. Especificamente na capital, digamos, mais “tímida” do Sudeste. Minúscula em território, mas gigante em qualidade de vida, Vitória tem provado com os seus elevados índices sociais e econômicos que, na atualidade, quem anda “comendo quietinho” não é o mineiro, mas sim o capixaba.

Ao longo dos séculos, a capital do Espírito Santo  conseguiu casar traços de uma pequena cidade litorânea com o agito dos grandes centros e, melhor, tudo isso aliado a índices sociais que batem de longe aos das outras metrópoles do Sudeste. A ilha-capital possui um PIB per capita (dados de 2010, segundo o IBGE) de R$71.407,32 (o maior entre as capitais brasileiras) e, de acordo o censo demográfico de 2010 (realizado pelo IBGE), a cidade é a segunda capital brasileira com maior rendimento domiciliar per capita do país. O prefeito de Vitória, João Coser, acredita que esses dados são os resultados de um intenso trabalho continuado ao longo dos anos. “Não basta uma gestão de quatro ou oito anos e sim uma atuação sistemática que tenha continuidade independentemente dos governos e propostas partidárias que se sucedem”, acredita.

A economia da cidade cresceu com base em incentivos financeiros dados a empresas importadoras. Outro fator que vale ressaltar é “a acelerada industrialização que teve como principal motor a implantação de grandes projetos nas áreas de metalurgia/siderurgia e celulose”, justifica Arlindo Villaschi, professor de Economia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Motivos que fazem aquecer o mercado de trabalho na cidade.

Quando completou 24 anos (5 anos atrás), Marcelo se formou em Engenharia Mecânica. Além do diploma, saiu da faculdade portando também a sua carteira de trabalho assinada. Atualmente – aos 29 anos – , além de empregado é chefe. Ele é sócio de uma loja de carros que funciona de segunda a sábado. “Saio de casa às 6h e volto às 20h”, conta. O jovem já pode se chamar de empresário. Mas essa não é uma realidade isolada.

Uma pesquisa da revista Você S/A que elege as 100 Melhores cidades do país para se fazer carreira, revelou que Vitória é a 3ª capital e o 4º município com o melhor desempenho. Esses dados corroboram outras estatísticas. Das capitais brasileiras, Vitória é a segunda do país que concentra o maior número de pessoas pertencentes às classes A e B (segundo a FGV – Fundação Getúlio Vargas). Outro fator que pode explicar esses elevados índices é a qualidade da educação no município. Por isso, Mirian mudou-se para lá.

Hoje, 20 minutos de carro separam a assistente social/professora dos seus trabalhos – se fosse de ônibus levaria, talvez, uns 35, 40 minutos (no máximo) em horário de pico e, praticamente, cruza-se a cidade inteira. Na época de faculdade, gastava uns 15 para chegar à universidade, mas a pé. “Tudo aqui é muito próximo: lojas, escolas, supermercados, hospitais. Tudo”, destaca Mirian, moradora da cidade há 12 anos que foi atraída pelas boas instituições acadêmicas da capital. Ao terminar o ensino médio, foi aprovada na Ufes, concluiu graduação, especialização e mestrado e decidiu permanecer em Vitória, como muitos formados seduzidos pelas boas oportunidades. Nos últimos anos, os satisfatórios números da educação (tanto a privada quanto a pública) na cidade têm chamado a atenção do resto do país.

Para Coser, os investimentos mais pesados na área começaram há alguns anos e foram intensificados nos últimos sete. Diversos projetos pedagógicos foram implantados na rede municipal. “Nas unidades de ensino infantil”, conta o prefeito, “crianças de seis meses a três anos são atendidas em período integral. Para as demais faixas etárias, inclusive do ensino fundamental, as atividades no contra turno escolar acontecem nas escolas, em parques municipais, áreas de lazer e espaços culturais”. Mas a educação não se limita aos jovens, a melhor idade também desfruta de diferentes “aulas”.

Seis da manhã. O céu começa a clarear e o movimento já se intensifica na areia da praia de Camburi. Aquecimento. Pula pra cá, mexe pra lá, espicha aqui, relaxa ali e daqui a pouco um “‘bora’ pra água!!!” surge no silencioso amanhecer capixaba. Mas às seis da manhã? Sim, e essa não é a parte mais curiosa. Esses animados, que encaram as sempre frias praias de Vitória, são formados por, basicamente, cinquentões, sessentões, setentões, oitentões e por aí vai! Aulas de hidroginástica ministradas gratuitamente para a população. E, claro, a dona Antônia e os seus 71 anos estão nessa turma. Segundo ela, o dia está só começando! “Faço academia na praia, participo – na unidade de saúde de Jardim da Penha – das aulas de artesanato para a terceira idade e, ainda, contribuo com projetos solidários e missionários na minha igreja”, lembra dona Antônia com um ar de satisfação. Essa rotina faz elevar ainda mais a expectativa de vida na capital.

Para o professor Adjunto do Departamento de História da Ufes, André Ricardo Valle Pereira, o Espírito Santo segue um padrão demográfico diferente do resto do país. É comparável somente ao de Santa Catarina. Ou seja, nos dois estados a sua capital não é a maior cidade. Mas a estrutura do repasse dos recursos estaduais privilegia, historicamente, as capitais, inclusive com obras preferenciais nelas. “Em Vitória, apesar de não haver indústrias de grande porte instaladas em seu território, as sedes das grandes empresas estão nela localizada, o que a melhora a fórmula do cálculo do repasse de ICMS”. Outro fator ponderado pela Coordenadora Adjunta do curso de Pós-Graduação do departamento de ciências sociais da Ufes, Marta Zorzal, está relacionado à geografia da cidade que é pequena e composta de poucas planícies. O território é ocupado em sua maioria por bairros de classe média e alta.

A população cresceu, mas se espalhou por outros municípios da Grande Vitória, cidades que concentram índices econômicos e sociais diametralmente opostos aos da capital. “Grande parte da população de trabalhadores que prestam serviços em Vitória foi fixada nos bairros populares da região metropolitana”, ressalta Marta. Esses bairros concentram elevados índices de pobreza, de desigualdades de acesso e, sobretudo, de violência urbana. “Os indicadores de violência da região metropolitana de Vitória estão entre os maiores do país, figura em segundo lugar no ranking nacional”.

Mas Coser reitera que, no município de Vitória, a preocupação está em “investir continuamente em políticas públicas de melhorias”, não apenas em infraestrutura urbana, mas também nas áreas sociais, com investimentos nas camadas mais pobres e mais suscetíveis à exclusão. Para uma cidade com um IDH de 0,856, há muito o que comemorar. Mas, óbvio, muito a aprimorar também. Marcelo pede por “avanços no trânsito para atender as demandas do crescente fluxo na capital”, Mirian quer que diminua os “níveis de poluição causados pelas empresas de minério e ferro”, e dona Antônia – que depende do transporte público para se locomover no município – apela para que “aumente o número de linhas dos ônibus na cidade”. O prefeito Coser não discorda: “políticas públicas precisam cada vez mais ser compreendidas não como artifícios circunstanciais ou de campanha, mas como políticas de Estado, com orçamento definido, avaliação permanente e busca da universalização de oportunidades”.  Oportunidades de uma pequena ilha que tem grande parte do seu tesouro distribuído de forma mais igualitária entre os habitantes e não enterrado num esconderijo secreto onde pouquíssimos espertos conseguem encontrá-lo.

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