Somos “Dexters”


Série americana termina e deixa a sensação de que todas as pessoas desenvolvem características “dexterianas” em momentos de intimidade

dexter4 O humanismo por trás do mais animalesco vício de um indivíduo traz proximidade quase que familiar entre espectador e protagonista. Esse, talvez, foi o maior desafio do criador James Manos na concepção inicial da série americana vencedora de Emmys e Globos de Ouro: fazer com que o conceito mais obscuro e condenável de vida trouxesse identificação entre quem está acompanhando os capítulos do programa e o próprio Dexter (interpretado por Michael Hall).

A incapacidade de domar o seu “dark passenger” fez com que o filho adotivo de Harry Morgan (atuação de James Remar) se ajustasse frente à sociedade. Ninguém imagina que o renomado perito especialista em sangue da Delegacia de Miami seja um “serial killer”. Seu ritual de investigação, captura e sacrifício, repetido inúmeras vezes ao longo dos episódios, era alimentado por uma rotina paralela escondida à grande parte das pessoas que o rodeavam, principalmente da Debra, sua irmã. O pai, centrado, policial referência e, de certa forma, idealizador do “Code of Harry”, transparecia, em vida, equilíbrio e normalidade. Espelho que fez Dexter entender a necessidade de viver “camufladamente”. Além de ter que lidar com o seu comportamento impulsivo, seria incapaz, por exemplo, de amar.

Produção, texto, fotografia, elenco e roteiro deram, em quase todas as temporadas (o “quase” é uma ressalva da 3ª que realmente foi um fiasco), uma aula de qualidade e fluidez num dos produtos mais rentáveis da Showtime (estreado em 1º de outubro de 2006 e exibido até 22 de setembro deste ano – dividido em oito temporadas). O destaque vai para Jennifer Carpenter (intérprete de Debra, a instável irmã de Dexter) que teve uma habilidade rara na interpretação de um personagem tão complexo e inconstante. Outro ponto de destaque fica por conta da trilha sonora que complementa e intensifica o ar muitas vezes sombrio das cenas ou, em outros momentos, caracteriza a “Miami latina” com sonoridades cubanas. A nível de enredo, é muito louvável a humanização das pessoas a partir do pressuposto de que nem todo o herói é bonzinho e inocente e nem todo o vilão é a materialização do diabo. Aliás, fica claro que “vilão” e “mocinho” são meros pontos de vista.

A evolução do personagem ao longo da série mostrou que a vida dupla faz parte do cotidiano universal. Todos nós temos práticas, vícios, impulsos que nos obrigam a vivenciá-los de maneira sigilosa. A preocupação inicial de esconder seu exercício macabro de “matar assassinos” para que a faceta monstruosa não fosse revelada, foi lentamente ofuscada por uma convicção de que ele não era totalmente desumano e que, mesmo contrariando as crenças do falecido pai, poderia sim levar uma vida “normal” (já que faz parte da natureza a dicotomia comportamental do homem) conciliando a obscuridade com sua rotina social, sexual, profissional e familiar. Habilidades que todos nós aprendemos a desenvolver frente a novas necessidades de contextualização.

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