Cabeça fria, planeta quente


Previsões da ONU mostram uma Terra aquecida e com mudanças que afetarão diretamente a vida humana e a biodiversidade atual.

derretimento_geleirasÀs vezes parece que é uma simples sensação, mas, na verdade, os dias estão ficando mais quentes. Se para jovens de 20 anos o recordar da pré-adolescência é acompanhado de mais frescor, imagine a memória dos idosos que sofrem dia após dia com as ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes. Não é nenhuma conspiração, alarmismo profético ou sensação de catastrofismo. É um fato! Realidade que foi novamente alertada pela ONU em 27 de setembro na conferencia do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, na sigla em inglês), realizado em Estocolmo, Suécia. A primeira parte do quinto relatório de avaliação fez uma projeção mais precisa sobre como deve estar a Terra daqui a 87 anos. Um mundo limpo, igualitário e regrado de tecnologias sustentáveis. Engano hollywoodiano! Os dados não são nada animadores: planeta aquecido, com fome e apresentando preocupantes alterações biológicas em seus ecossistemas. Tudo isso fruto uma elevação de 5°C. Talvez os mais caros e irreparáveis que já houve na história terráquea.

A bancada foi composta com um objetivo: informar de maneira mais estatística o que será da Terra em 2100. Secretário-geral da Organização Meteorológica da ONU, Michel Jarraud, foi o responsável por divulgar ao mundo os resultados daquele que seria um dos estudos mais aprofundados e reveladores da real situação do planeta azul. “A década entre 2001 e 2010 é a mais quente, comprovando a tendência de aquecimento global. Nunca foram quebrados tantos recordes de temperatura”, alarmou Jarraud aos jornalistas que acompanhavam a coletiva.

Integrante do IPCC e pesquisador do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), José Marengo argumenta que “estudos feitos com modelagem já comprovam a influência humana no aquecimento observado nos últimos 50 anos”. Mas o compêndio de informações divulgadas não só analisou a questão do aquecimento do planeta, como também pontuou alterações relacionadas às chuvas e a maior frequência de eventos extremos. Um clima mais quente proporciona a ocorrência de episódios que desencadeiam desastres naturais.

Mudanças

Num cenário mais pessimista, onde a Terra teria uma superpopulação e um aumento significativo na emissão de gases estufa, a média da temperatura global elevaria em 4,8°C se compararmos à atual. “Mas nas regiões amazônicas e no Centro-Oeste do Brasil pode ocorrer uma elevação de 6°C”, complementa Marengo. Isso diminuiria em até 20% as precipitações nessas áreas. Existe também a questão muito debatida sobre o aumento do nível dos oceanos. A pesquisa constatou que a água pode subir 82 centímetros, isso, somado à maior frequência de furacões categorias quatro e cinco, seria desastroso para as cidades. Marengo lembra ainda que “o Brasil não tem furacões, mas pode enfrentar problemas de erosão costeira ou ressacas capazes de chegar mais próximas às orlas. A mensagem que o IPPC passa é a de que temos que fazer alguma coisa”. Mas é claro que não é só o homem que sofrerá com tudo isso.

As mudanças poderão ser sentidas em diferentes escalas. Numa dimensão local (uma unidade de conservação da Mata Atlântica, por exemplo) podem ocorrer alterações fenológicas, ou seja, o padrão reprodutivo das espécies seria afetado. “Plantas floresceriam antes da época costumeira, ou aves podem ficar prontas para reprodução depois do período adequado”, explica o coordenador do Laboratório de Biogeografia da Conservação da Universidade Federal de Goiás, Rafael Loyola. Como a natureza é intercambiável, esse efeito desencadearia consequências abrangentes àquela realidade. “Há chances de uma espécie que poliniza essa planta que floresceu antes da hora não achar as flores na época em que costumava encontrar”, acrescenta. “O mesmo vale para aves e mamíferos que dispersam sementes”.

Em escala regional (como a Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica), os principais efeitos seriam sentidos na distribuição geográfica das espécies. “Essa repartição deve mudar, acompanhando a modificação do clima. Dos estudos que temos visto e, inclusive, temos feito em laboratório, a expectativa é a de que as distribuições sofram uma contração”, prevê Loyola. O que aumenta o risco de extinção de determinados animais e vegetais.

Mas existe também uma corrente da ciência que alimenta a ideia de que o aquecimento e suas consequências são hipóteses sem comprovação científica. Em entrevista ao Programa do Jô Soares, em 05 de maio de 2012, o doutor em Geografia Ricardo Augusto Felicio argumentou, “são 3 mil anos que essa história existe. Na Grécia antiga se discutia a consequência do corte das árvores, em Roma era questionado se a construção de aquedutos modificaria o clima. Hoje continuamos com a conversa de que a Terra vai mudar, que o homem mexe no planeta, mas, na verdade, não mexe nada”. Essa vertente acadêmica explica, por exemplo, a elevação do nível dos oceanos como “variações pontuais” de eventos como El Niño.

Mito ou verdade, os pontos que sustentam a teoria de que o futuro pode ser catastrófico a nível ambiental são amplamente debatidos e pautados nas reuniões cupulares promovidas pela ONU, mas são poucas as nações que tomam para si as dores e passam a lutar em favor do que, ao que parece, é um senso de “bem-comum”.

Dificuldades do desenvolvimento sustentável

Uma “guerra” travada entre países desenvolvidos e  emergentes norteiam, muitas vezes de forma distorcida, o foco do debate sobre o tema: de quem é a culpa? Os bem estruturados afirmam que estão fazendo a sua parte e, ao mesmo tempo, temem que os recursos para a concretização de políticas públicas sustentáveis sejam caros demais ou menos eficientes do que os tradicionalmente poluidores. No outro pólo, os países em desenvolvimento – com diversas mazelas sociais – acusam o lado de lá como os grandes responsáveis pela maioria das emissões poluentes e que é desleal um cenário onde cresçam e atinjam IDH’s muito elevados sem passar pelo processo de industrialização experimentado pela maior parte das nações do hemisfério norte e Oceania. “A ideia é a de que todo mundo deixe de lado o ‘eu sou poluidor de muito tempo’ ou o ‘eu sou poluidor novinho’ e pense, sente e discuta. Participei de muitas reuniões, e é realmente frustrante a forma como apontam o dedo um para o outro. Esse tipo de coisa não adianta. Quando chegarem, enfim, a uma decisão, já será tarde”, lamenta Marengo.

No programa “Entrevista”, da TV Futura, de 23 de março de 2013, o professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, José Erli da Veiga, afirmou que um dos grandes desafios de países emergentes que estão procurando dar uma dignidade mínima à população é a questão relacionada à energia. Governos querem, simplesmente, arrumar uma forma de a sociedade ter acesso (a todo custo) a esse recurso. “A Índia tem uma postura muito ruim com essa questão. Não se importa se é uma energia limpa ou não”, disse Veiga. Situação que, muitas vezes, elimina a ponderação quanto ao uso de soluções renováveis.

Há muitas questões de natureza econômica que atrasam e postergam as discussões, mas uma realidade é previsível: “o planeta vai continuar aquecendo, não tem como evitar. A forma mais complexa de reduzir a um mínimo possível é diminuindo as emissões de gases que causam o efeito estufa”, salienta Marengo. Essa é uma questão a ser debatida por todos os governantes globais e, ao que parece, não é o ar-condicionado refrescante dos seus confortáveis escritórios que solucionará o problema.

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