Autismo socializado


O desenvolvimento da educação inclusiva para estudantes que sofrem do distúrbio é fundamental para que eles desenvolvam habilidades conquistadas com a vivencia coletiva.

 UmacriancaautistaÀs vezes é complicado imaginar um universo “paralelo” onde tudo o que importa é você e suas vontades peculiares. Mas as complexidades do autismo vão além dessa primeira e, nem sempre, determinante característica. Muitos são os desafios dos profissionais que trabalham com a educação inclusiva desses estudantes que precisam de respeito, compreensão e aceitação com a garantia de que o trabalho transcenda o simplismo da “inserção na escola” e passe a ser, de fato, incluído nas diversas dimensões do educando.

O conceito de “autista” foi construído e consolidado pelas concepções inatistas e ambientalistas e continua a repercutir fortemente nos espaços escolares. “Autismo é um termo usado para denominar comportamentos humanos que se centralizam em si mesmos, voltados para o próprio indivíduo”, explana Sílvia Ester Orrú psicopedagoga e doutora em Educação (professora da Faculdade de Educação e do Programa de pós-graduação em Educação da Universidade de Brasília). Estimativas revelam que no Brasil, em 2007, havia cerca de 2 milhões de pessoas que sofrem do transtorno.

A ausência de comunicação é, talvez, o ponto que mais marque as inúmeras características do transtorno. Isso, obviamente, dificulta muito a interação dessas crianças com outras da mesma idade. Outras particularidades se encontram na área da linguagem e da interação social, além de serem percebidos interesses mais restritos. O “estar na escola” pode sim ser um fator que faz a diferença para que o estudante possa ser inserido numa realidade social mais dinâmica. “A principal importância de incluir um aluno na escola regular é pensar no desenvolvimento social do cidadão, principalmente, com outras da sua idade, oportunidade esta que somente a escola lhe proporciona”, opina Adriana Kuperstein, diretora da Re-Fazendo Assessoria Educacional Especial para TEA’s de Porto Alegre (RS). Mas Adriana pondera que “cabe ao professor lidar com as diversas personalidades presentes na sala de aula e acomodar as diferenças e conflitos que possivelmente surgirão”.

Para Sílvia, existe uma tendência de se matricular a criança em instituições especializadas. “Contudo”, analisa, “a institucionalização perpetua a exclusão e a marginalização, além de pouco contribuir para o desenvolvimento e aprendizagem da criança, adolescente ou jovem”. Isso só reforçaria a experiência e os comportamentos semelhantes, já que sua convivência estaria atrelada a outras pessoas com as mesmas características.

Um erro frequente é o de confundir o diagnóstico adequado que justifique os comportamentos de determinado aluno. Isso deve deixar ainda mais claro que o autismo infantil é incapaz de ser identificado com situações isoladas. A confluência de fatores, aliado a um trabalho multiprofissional, vai indicar qual é o real problema daquele indivíduo.  É comum que o diagnóstico seja feito até os três anos de idade, mas em muitos casos chega a demorar anos. Mas Silvia adverte que “o diagnóstico não traz soluções para essa criança, sua família ou para a escola”, é somente uma comprovação daquilo que a psiquiatria denominou de autismo ou Transtorno do Espectro do Autismo. “O que realmente faz diferença é como essa criança é concebida, como ela é tratada pelo grupo social, aquilo que lhe é oferecido para aprender e se desenvolver”.

Outro fator que pode dificultar todo o processo é uma espécie de omissão dos pais, ao se depararem com alguns “sintomas” e não querer acreditar que o seu filho tenha algum tipo de transtorno.  É nessas horas que a escola pode dar aquela ajudinha. “Os professores, em sua maioria, acompanham o aluno durante muito tempo no dia a dia, portanto é fundamental que qualquer alteração no desenvolvimento da criança ou dificuldade que chame a atenção seja alertada para a coordenação, direção e pais”, acrescenta Adriana.

Já dentro da escola, uma das principais ideias referente à inclusão e que auxilia muito os pedagogos é adaptação curricular. Isso envolve não somente o conteúdo acadêmico a ser apresentado de diferentes maneiras, quanto também relacionado ao ambiente físico criado para receber aquele estudante. “E não nos referimos, neste caso, a rampas para deficientes ou lugares especiais no refeitório”, lembra Adriana. Nesse caso, os apoios visuais e físicos são determinantes para que o aluno consiga estruturar-se dentro do ambiente escolar e, consequentemente, inicie o processo de evolução tão essencial e importante a esses estudantes.

Mas acreditar que apenas a socialização importa também é uma grande falha. “Os alunos precisam frequentar a escola para aprender com as demais pessoas, tanto com seus professores como com seus colegas”, enfatiza Silvia. Para mudar a visão simplista de que o ambiente escolar deve contribuir somente com o “desenvolvimento sociável” do educando é necessário um profundo repensar sobre os processos de exclusão e as possibilidades de aprendizagem que as pessoas, dentro do seu contexto e idiossincrasias, possuem.

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